Produções aparentemente inocentes nas redes buscam engajamento e podem afetar atenção e comportamento

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Perfis em plataformas como Instagram, TikTok e YouTube Shorts passaram a exibir um tipo de conteúdo que lembra uma vitrine digital: frutas como abacates, morangos, abacaxis e bananas, com traços humanizados, cores vibrantes e expressões caricatas, protagonizam vídeos criados com o uso de inteligência artificial. Nessas produções, que se popularizaram rapidamente, esses personagens encenam pequenas histórias — geralmente com duração de até um minuto — repletas de conflitos típicos de folhetins, como traições, desentendimentos familiares e intrigas.

Embora à primeira vista esses vídeos pareçam apenas leves e divertidos, especialistas em cultura digital fazem ressalvas sobre o fenômeno. Para eles, esse tipo de produção se enquadra no chamado “AI slop” — termo usado para descrever conteúdos gerados por inteligência artificial com baixo investimento em qualidade estética e narrativa.

Diferentemente de produções verticais profissionais, essas “novelinhas” carecem de elaboração mais cuidadosa e podem, além disso, reproduzir informações enganosas e reforçar estereótipos sociais, de gênero e de raça.

Outro ponto levantado é que esses conteúdos acabam alimentando as próprias ferramentas de inteligência artificial, contribuindo para a repetição de padrões simplificados e, muitas vezes, de baixa qualidade. Além disso, especialistas apontam possíveis efeitos no comportamento e na cognição dos usuários. Para as plataformas, no entanto, esse tipo de vídeo funciona como uma estratégia eficaz de retenção de público, incentivando o consumo contínuo por meio da rolagem infinita.

A popularização dessas produções acompanha uma tendência já consolidada nas redes, que inclui vídeos de animais e objetos com características humanas, como a chamada “Ballerina Cappucina”, uma xícara estilizada que também viralizou. Segundo a cientista da computação Nina da Hora, esse conjunto de conteúdos compartilha um mesmo objetivo: capturar a atenção do usuário com estímulos simples e repetitivos.

As narrativas envolvendo personagens como “Moranguete” e “Abacatudo”, bastante populares nas redes, vão além do entretenimento, segundo especialistas. Muitas dessas histórias apresentam elementos problemáticos, como representações marcadas por ciúme, submissão e sexualização de personagens femininas.

Para Mariana Ochs, coordenadora do programa EducaMídia, do Instituto Palavra Aberta, esses conteúdos utilizam linguagem acessível e estética atrativa para alcançar públicos jovens, mas podem carregar desinformação e diferentes formas de violência simbólica.

Crianças e adolescentes estão entre os mais expostos a esse tipo de conteúdo, mas os impactos não se restringem a esse grupo. De acordo com estudiosos, o consumo frequente de vídeos curtos e repetitivos pode afetar a capacidade de concentração e o pensamento crítico de usuários de todas as idades.

O professor Anderson Rocha, da Unicamp, avalia que esse padrão de consumo cria uma sensação de previsibilidade e reduz o engajamento com conteúdos mais complexos. “Para o desenvolvimento crítico, isso é prejudicial. E, em cérebros ainda em formação, o impacto pode ser ainda maior”, afirma.

Com a popularização de ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, a produção desse tipo de conteúdo se tornou mais acessível, intensificando a busca por viralização e monetização.

No caso das “novelinhas de frutas”, a tendência teria começado com o perfil @ai.cinema021, no TikTok, responsável por lançar o “Fruit Love Island”, uma paródia do reality show britânico “Love Island”. O sucesso foi tão expressivo que a própria plataforma chegou a remover alguns vídeos por suspeita de uso automatizado de interações, embora o formato já tivesse se espalhado globalmente, com versões em diferentes idiomas.

Atualmente, surgiram até cursos que prometem ensinar a criar vídeos virais com inteligência artificial. Por valores a partir de R$ 9,99, é possível adquirir pacotes com orientações sobre construção de personagens e narrativas pensadas para gerar engajamento e retorno financeiro. As promessas incluem técnicas para desenvolver histórias com “ganchos” e desfechos que prendam a atenção do público.

Segundo especialistas, a lógica por trás dessas produções é baseada em volume e teste. Criadores produzem grande quantidade de vídeos de baixo custo para identificar quais formatos geram mais visualizações. A partir daí, passam a investir nesses modelos, aumentando o retorno financeiro por meio das plataformas, que também se beneficiam do tempo prolongado de permanência dos usuários.

Mesmo com diretrizes que restringem conteúdos automatizados e não originais, algoritmos de redes como TikTok, YouTube e Instagram acabam impulsionando esse tipo de produção. Isso ocorre porque esses vídeos são estruturados para favorecer a rolagem rápida e contínua, mantendo o usuário conectado por mais tempo.

Nesse cenário, todos parecem ganhar — criadores e plataformas. No entanto, especialistas apontam que o usuário pode ser o principal prejudicado, ao ter sua atenção capturada por conteúdos repetitivos e de baixa qualidade, com possíveis impactos no comportamento e na forma de consumir informação.

Por O Correio de Hoje

Jornalista | Palestrante | Assessora de Comunicação | Consultora em Gestão de Crise de Comunicação | Apresentadora de rádio e televisão.

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