Dados do Ministério da Justiça apontam quase 60 mil vítimas em 2025 e revelam crescimento persistente das notificações

Post Images
Reprodução

 

O número de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual no Brasil mais do que triplicou na última década e se aproxima da marca de 60 mil casos por ano. Dados do Ministério da Justiça mostram que, em 2025, foram registradas 59.366 vítimas, ante 19.496 em 2015 — um aumento de 204,5% no período.

O total permanece em patamar historicamente elevado. Em comparação com 2024, quando foram contabilizadas 59.666 vítimas, houve estabilidade.

A divulgação dos dados coincide com o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado nesta segunda-feira 18. A data foi instituída em 1998 para mobilizar a sociedade em torno do enfrentamento desse tipo de crime.

Entre 2015 e 2025, o país somou 486.001 vítimas, média de 121 registros por dia. Os três maiores números da série histórica foram observados entre 2023 e 2025, período em que os casos se mantiveram acima de 59 mil por ano.

O pico ocorreu em 2023, com 59.779 ocorrências.

Os dados incluem registros de estupro de vulnerável, categoria que abrange menores de 14 anos, pessoas com deficiência e outras vítimas consideradas legalmente incapazes de consentir. As estatísticas não incluem informações do estado do Rio de Janeiro.

As meninas concentram a maior parte das notificações. No período analisado, 412.025 vítimas eram do sexo feminino, o equivalente a 84,7% do total. Entre os meninos, foram registrados 68.718 casos. Outros 5.258 registros não informam o sexo da vítima.

Em 2025, a taxa nacional foi de 27,82 vítimas por 100 mil habitantes.

Em números absolutos, os estados com mais casos desde 2015 foram São Paulo, com 100.571 registros; Paraná, com 55.809; Minas Gerais, com 41.703; Rio Grande do Sul, com 40.921; e Pará, com 34.969.

Embora São Paulo lidere em volume total, alguns estados apresentam incidência proporcional mais elevada. Em 2025, o Pará registrou taxa de 54,21 vítimas por 100 mil habitantes, seguido pelo Paraná, com 44,93. Em São Paulo, o índice foi de 26,56 por 100 mil habitantes.

Procurado por e-mail, o Ministério da Justiça não respondeu até a sexta-feira 15 sobre as medidas adotadas para enfrentar o problema.

Para a delegada Monique Lima, titular da 6ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, o aumento dos registros reflete tanto maior número de denúncias quanto avanços na capacidade da rede de proteção em identificar casos antes invisíveis. “A violência sexual contra crianças e adolescentes ainda é um problema muito grave e subnotificado, mas houve um avanço importante na capacidade de identificar e denunciar esses casos”, afirma.

Segundo ela, profissionais de saúde, educação, assistência social e segurança pública estão mais preparados para reconhecer sinais de abuso. “Muitas situações que antes ficavam escondidas dentro de casa agora chegam ao conhecimento das autoridades.”

A delegada ressalta que a maior parte das ocorrências envolve crianças com menos de 14 anos.

Somente em 2025, São Paulo registrou mais de 10 mil casos nessa faixa etária, dos quais cerca de 9.900 foram classificados como estupro de vulnerável. No primeiro trimestre deste ano, já haviam sido contabilizados mais de 2.600 registros.

Monique Lima enfatiza que a violência sexual atinge todas as classes sociais e, em geral, é cometida por pessoas próximas das vítimas.

“São casos cometidos por alguém do convívio familiar ou social. Não é um problema de um bairro ou de uma classe específica. É uma violência estrutural.”

O pesquisador Daniel Cerqueira, um dos coordenadores do Atlas da Violência, avalia que parte do aumento decorre da redução da subnotificação, impulsionada por campanhas de conscientização, mudanças legislativas e maior preparo das autoridades.

Mas ele pondera que esse fator, sozinho, não explica o crescimento. “Eu acredito também que os casos tenham aumentado”, afirma. Daniel Cerqueira aponta que a disseminação de discursos misóginos e da chamada “machosfera” entre adolescentes pode estar contribuindo para o agravamento do problema. “Há um recrudescimento dessas culturas misóginas e machistas, associado ao radicalismo político e à importação dessa cultura red pill”, diz.

Para o pesquisador, os números oficiais revelam apenas uma parte da realidade. “Isso ainda é a ponta do iceberg.”

Estados com mais vítimas de estupro de vulnerável (2015–2025)

1º São Paulo – 100.571 casos
2º Paraná – 55.809 casos
3º Minas Gerais – 41.703 casos
4º Rio Grande do Sul – 40.921 casos
5º Pará – 34.969 casos
17º Rio Grande do Norte – 5.869 casos

Fonte: Ministério da Justiça

Jornalista | Palestrante | Assessora de Comunicação | Consultora em Gestão de Crise de Comunicação | Apresentadora de rádio e televisão.

Faça Login ou Cadastre-se no site para comentar essa publicação.

0 Comentários