Data mobiliza organizações em Buenos Aires e reacende debate sobre memória, justiça e impacto da ditadura na política atual

Post Images
Reprodução

Milhares de argentinos vão às ruas nesta terça-feira, 24, para marcar os 50 anos do golpe de Estado de 1976, que deu início à ditadura militar mais violenta do Cone Sul. Estima-se que entre 20 mil e 30 mil pessoas tenham desaparecido entre 1976 e 1983, período marcado por repressão, perseguições e violações sistemáticas de direitos humanos.

Os atos devem reunir diferentes setores políticos e organizações de direitos humanos em Buenos Aires. A principal concentração está prevista para as 14h, na interseção das ruas Piedras e Avenida de Mayo, de onde manifestantes seguirão em direção à Praça de Maio. Outras mobilizações foram convocadas em horários e trajetos distintos, incluindo uma marcha do espaço Encuentro Memoria, Verdad y Justicia e um ato liderado pelo grupo La Cámpora, que partirá da ex-Esma — antigo centro clandestino de detenção — até a residência da ex-presidente Cristina Kirchner.

Meio século depois, a data ainda mobiliza, mas também revela divisões. Para parte da população, especialmente aqueles nascidos após a redemocratização, o período é uma memória indireta, transmitida por relatos e disputas políticas. O tema segue presente no discurso público, em especial entre setores ligados à esquerda e ao kirchnerismo.

A ditadura argentina ficou marcada por práticas como os “voos da morte”, em que opositores eram jogados no Rio da Prata após serem sedados, além de centros de detenção clandestinos espalhados pelo país.

Após o fim do regime, a Argentina se destacou entre os países da região por levar à Justiça integrantes das Forças Armadas. Mais de 900 agentes foram condenados, incluindo o ex-ditador Jorge Rafael Videla, que morreu preso. O processo foi impulsionado pela derrota na Guerra das Malvinas, em 1982, que enfraqueceu os militares e abriu caminho para o Julgamento das Juntas no governo de Raúl Alfonsín.

“Hoje a Argentina é um case no sentido de ter rapidamente e até hoje mantido detrás das grades repressores de alto e menor graus”, afirmou Luis Moreno Ocampo, ex-procurador do Tribunal Penal Internacional e promotor-assistente no julgamento, ao destacar a repercussão internacional das violações como fator decisivo para as condenações.

Apesar dos avanços na responsabilização, especialistas apontam que o país ainda enfrenta desafios na elaboração de sua memória histórica. Para o historiador Federico Lorenz, o risco é que a data se transforme em um ritual desconectado do presente, sem reflexão sobre seus impactos atuais.

Segundo ele, a democracia argentina foi construída sobre estruturas herdadas do período autoritário, o que ajuda a explicar problemas persistentes, como fragilidades no Estado de Direito e desigualdades na aplicação de garantias legais.

Lorenz também aponta que a ausência de uma autocrítica mais profunda contribuiu para a polarização política e abriu espaço para o ressurgimento de discursos negacionistas, hoje presentes em setores da direita.

Ainda assim, a Argentina mantém uma rede ativa de instituições dedicadas à preservação da memória e à busca por desaparecidos, como a Equipe de Antropologia Forense, a organização H.I.J.O.S. e as Mães e Avós da Praça de Maio, que seguem atuando na identificação de vítimas e na cobrança por justiça.

Jornalista | Palestrante | Assessora de Comunicação | Consultora em Gestão de Crise de Comunicação | Apresentadora de rádio e televisão.

Faça Login ou Cadastre-se no site para comentar essa publicação.

0 Comentários