Ato na Praça de Maio cobra justiça, critica governo Milei e reafirma número de 30 mil desaparecidos

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As ruas Bolívar, Defensa, Reconquista e San Martín, no entorno da Casa Rosada, foram tomadas por milhares de manifestantes na tarde desta terça-feira (24), em Buenos Aires, durante os atos que marcaram os 50 anos do golpe militar de 1976. A mobilização levou uma multidão até a Praça de Maio, tradicional ponto de encontro do Dia da Memória, data dedicada à lembrança das vítimas da ditadura argentina.

Conhecido como 24M, o ato reuniu organizações de direitos humanos, movimentos sociais, sindicatos e diferentes correntes políticas. Neste ano, a manifestação ganhou peso adicional diante do marco de meio século do início do regime e das recentes declarações do governo de Javier Milei, que voltaram a relativizar os crimes cometidos durante o período autoritário.

Ao longo da marcha, famílias, jovens e idosos ocuparam a avenida de Maio carregando fotos de desaparecidos e entoando palavras de ordem. Entre os gritos mais repetidos estavam “são 30 mil desaparecidos, todos presentes”, em resposta às falas do governo que questionam o número de vítimas. Canções de artistas como Charly García e Mercedes Sosa também marcaram o percurso.

A mobilização se estendeu por toda a região central da capital argentina, com fluxo contínuo de pessoas mesmo após o encerramento formal do ato. Bandeiras com rostos de desaparecidos provocaram momentos de silêncio seguidos por aplausos e manifestações contra os responsáveis pelos crimes da ditadura.

Durante o evento, um documento assinado por entidades como as Mães e Avós da Praça de Maio foi lido ao público, reforçando a cobrança por justiça e a defesa da memória histórica. “A memória é defendida pela luta”, diz o texto, que também criticou a postura do governo federal. As organizações afirmaram que “não esquecemos, não perdoamos e não nos reconciliamos”.

A marcha também prestou homenagem a vítimas estrangeiras, incluindo o músico brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, sequestrado em março de 1976. Outro símbolo presente foi a imagem do personagem de “O Eternauta”, obra de Héctor Oesterheld, desaparecido junto com suas quatro filhas durante o regime.

No campo político, adversários de Milei, como Horacio Rodríguez Larreta e Sergio Massa, participaram das manifestações e condenaram os crimes da ditadura. Intelectuais e artistas também estiveram presentes, ampliando o caráter plural do ato.

As críticas ao governo se intensificaram após a divulgação, pela Casa Rosada, de um vídeo que defende a chamada “memória completa”, incluindo vítimas de organizações armadas da época. A posição é associada à chamada “teoria dos dois demônios”, que equipara ações da ditadura e de grupos que a combatiam, visão rejeitada por entidades de direitos humanos.

Além de lembrar os mortos e desaparecidos — estimados em cerca de 30 mil —, o ato destacou crimes como o sequestro de crianças de opositores do regime. Segundo as Avós da Praça de Maio, 140 netos já foram identificados, mas ainda há cerca de 300 pessoas com identidade alterada. A presidente da entidade, Estela de Carlotto, afirmou que o “plano sistemático de roubo de bebês ainda persiste”.

No encerramento, lideranças relacionaram o período ditatorial a um modelo econômico que, segundo os organizadores, prejudicou o desenvolvimento do país e a organização social. O discurso também criticou alianças políticas contemporâneas na região, em meio à reedição de debates sobre memória, verdade e justiça na Argentina.

Jornalista | Palestrante | Assessora de Comunicação | Consultora em Gestão de Crise de Comunicação | Apresentadora de rádio e televisão.

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